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07/02/19

Pós-graduação torna mais promissora a atuação do Biomédico

O aperfeiçoamento por meio de mestrado ou doutorado profissional tem capacitado muitos profissionais para atuar nas empresas e não apenas na docência universitária, como tradicionalmente ocorria

Há poucas semanas, um Curso de Verão, promovido pela Universidade Federal de Goiás (UFG), reuniu dezenas de biomédicos interessados em integrar os programas de mestrado e doutorado da instituição. Os profissionais de diferentes áreas da saúde acompanharam palestras, minicursos e mesas-redondas onde foram apresentadas diferentes linhas de pesquisas e facilitada a interação entre os participantes.
Biomédico, mestre em Genética e Biologia Molecular pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Atualmente doutorando em Genética e Biologia Molecular pela UFG, o professor Kassyo Lobato Potenciano da Silva coordenou o Curso de Verão da UFG e em entrevista ao Site do CRBM-3 destacou a importância da pós-graduação para a carreira do biomédico. Confira a entrevista:

Porque é importante ao biomédico ir além da especialização (visto que há várias habilitações) e partir para um mestrado ou doutorado?
O ingresso na pós-graduação stricto sensu é importante ao profissional biomédico a partir do momento em que se deseja alcançar aperfeiçoamento profissional e/ou a entrada na vida acadêmica-científica, além da busca por novos campos de atuação. Diferentemente da pós-graduação lato sensu que possui uma menor carga horária e é dedicada exclusivamente à competências específicas de aplicação prática, a pós-graduação stricto sensu conta com uma carga horária consideravelmente maior e pode estar voltada para os cenário profissional, acadêmico e/ou científico. Porém, vale ressaltar que algumas instituições podem contratar como docente um profissional com titulação mínima exigida de especialização lato sensu.
Quem geralmente busca este tipo de especialização, são profissionais de modo geral que queiram seguir a docência ou a pesquisa?
Nem sempre. Boa parte dos profissionais, de modo geral e não apenas biomédicos, associam a pós-graduação stricto sensu à docência e/ou à pesquisa, quando na verdade esta é vertente de apenas um tipo de pós-graduação stricto sensu. Para esta modalidade voltada para a docência e pesquisa comumente se dá o nome de mestrado e/ou doutorado acadêmicos. No entanto, existe desde o início da década de 90 a modalidade conhecida como mestrado profissional (MP), voltada para a capacitação de profissionais, mediante o estudo de técnicas, processos, ou temáticas que atendam a alguma demanda do mercado de trabalho. Neste mesmo sentido, em 2017, o MEC instituiu a modalidade de doutorado profissional. Sendo assim, podemos concluir que atualmente a pós-graduação stricto sensu atende a todas as demandas do aperfeiçoamento profissional, seja profissional ou acadêmico-científico. Partindo desse ponto de vista, é importante destacar que está se tornando cada vez mais comum encontrar nos programas de pós-graduação stricto sensu pessoal que atua não em faculdade, mas em empresas.
Na sua opinião, o mercado remunera de forma justa esses profissionais com títulos de mestre ou doutor?
Não. Infelizmente, grande parte do mercado não remunera de maneira justa os mestres e doutores. Para se chegar à conclusão de um mestrado o tempo de dedicação aos estudos pode variar entre 6 e 8 anos, contabilizando da graduação ao fim da pós-graduação. No caso de se chegar à conclusão do doutorado esse tempo aumenta em 4 a 5 anos, em média. Isso significa que grande parte desses profissionais dedicarão de 6 a 13 anos na vida acadêmica a fim de se obter uma melhor qualificação. O mercado não acompanha essa dedicação à qualificação de forma correta. Os quadros com os quais nos deparamos no mercado de trabalho muitas vezes incluem estes profissionais pós-graduados na mesma escala de remuneração de um profissional sem uma especialização. É importante valorizar empresas que também valorizem seus profissionais, e talvez seja esse o maior desafio em tempos atuais. A necessidade se obter um emprego, uma remuneração, uma renda, muitas vezes fazem nossos profissionais se apequenarem diante do mercado de trabalho, se submetendo a situações de remunerações completamente injustas. É preciso uma conscientização dos profissionais biomédicos em prol da autovalorização.
Na UFG, quais as linhas de pesquisa disponíveis para quem quer se especializar?
Além das linhas de pesquisa em que atuo, Genética e Biologia Molecular, outras áreas de atuação do profissional biomédico são contempladas pela pós-graduação stricto sensu na Universidade Federal de Goiás, tais como biologia celular, imunologia, bioquímica, microbiologia, toxicologia, bromatologia, e áreas afins. Vale ressaltar que em cada uma destas áreas há uma extensa gama de subáreas, o que torna as possibilidades mais vastas. Por exemplo, dentro da genética você encontrará grupos de pesquisa que atuam em genética humana, genética animal, genética de plantas e genética de microrganismos.
Tem conhecimento se em universidades dos estados de Minas Gerais, Mato Grosso, Tocantins e no Distrito Federal é possível fazer um mestrado ou doutorado em áreas que contemplem a Biomedicina?
Boa parte das universidades públicas destes estados do Centro-Oeste possui programas de pós-graduação que contemplam as atuações do profissional biomédico, especialmente as universidades e institutos federais. Algumas universidades privadas do estado de Goiás e da região Centro-Oeste também têm se dedicado, nos últimos anos, a abranger em seus campos de atuação a pós-graduação stricto sensu. É importante aos profissionais que se interessam pela área ficarem atentos aos meios de comunicação dos programas de pós-graduação, sejam websites ou páginas em sites de relacionamento, pois são onde são divulgados os processos de seleção (editais).
Cursos de verão, tal como o realizado, cumprem o papel de despertar o interesse do biomédico? Há uma melhor fase profissional para investir num mestrado ou doutorado?
Os cursos de verão promovem exatamente a interação entre alunos de graduação, em sua maioria, e a pós-graduação, através da exposição de trabalhos desenvolvidos por docentes e discentes. Boa parte dos alunos de graduação, principalmente àqueles oriundos de universidades privadas, possui pouco conhecimento sobre a pós-graduação stricto sensu. As oportunidades de realização de uma iniciação científica em instituições privadas são raras, o que distancia seus estudantes da pesquisa científica. Os cursos de verão, de inverno, também conhecidos como cursos de férias, vêm de encontro a essa necessidade de aproximação entre estes grupos. Através destes eventos é possível também apresentar as mais complexas linhas de pesquisa em uma linguagem de fácil compreensão, voltada especialmente para o público-alvo. Na última edição do Curso de Verão em Genética da UFG, realizada em Janeiro de 2019, recebemos 574 inscrições, contabilizando inscritos de todos os estados do país. Foram selecionados 100 estudantes que estiveram no evento, sendo 60% deles de origem de outros estados. Estes números reforçam a ideia de que a pós-graduação, mesmo em todas as suas dificuldades diante do mercado de trabalho, é um caminho promissor tanto para o aperfeiçoamento profissional, quanto para interesses na área acadêmica-científica.

 

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