BRASIL
CFBM
Portal da Transparência

27/11/18

Biomédica goiana conduz projeto reconhecido internacionalmente

Voltado para os portadores de Doença de Chagas, o trabalho iniciou-se com a capacitação dos médicos cadastrados no Telessaúde, evitando deslocamentos e favorecendo a qualidade de vida dos pacientes. Próximo passo é o prontuário eletrônico. O interesse dos Médicos Sem Fronteiras e da Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas atesta a eficiência e dá credibilidade ao trabalho.

A biomédica Liliane da Rocha Siriano está à frente de um estudo contra a doença de Chagas reconhecido internacionalmente. O trabalho começou em 2013, ano em que Goiás passou a ser o único estado do Brasil onde a notificação dos casos crônicos da doença é compulsória por força de lei estadual, e ganhou destaque no último mês de outubro, quando representantes de das organizações internacionais, Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (Drugs for Neglected Diseases Initiative - DNDi) e a Médicos Sem Fronteiras (MSF) visitaram a cidade de São Luís de Montes Belos, na região central do Estado, para conhecer o projeto coordenado pela biomédica.

O projeto permite o acompanhamento de pacientes crônicos da doença de Chagas e foi produzido por técnicos da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) em parceria com o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC/UFG). A responsável pelo programa de doença de Chagas no Estado de Goiás, na Superintendência de Vigilância em Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SUVISA), Liliane da Rocha Siriano, é graduada em Biomedicina pela PUC-GO, mestre e doutora em Medicina Tropical pelo Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (PTSP/UFG) e biomédica do Laboratório de Chagas do Hospital das Clínicas.

A região de São Luís de Montes Belos foi escolhida para o projeto-piloto por ser a que possui o maior número de casos crônicos notificados de doença de Chagas no Estado. A partir dos dados obtidos com as notificações obrigatórias foi possível identificar onde os pacientes com doenças de Chagas residem; quais são as dificuldades de acesso ao sistema público de saúde; qual forma clínica preponderante; realizar o acompanhamento da liberação do medicamento; além da possibilidade de ampliar e traçar planos na área de vigilância entomológica.

“Sabe-se que aproximadamente 70% desses pacientes são assintomáticos, o que dispensaria o tratamento em um local de atenção terciária, fazendo com que determinados pacientes pudessem ser acompanhados em seus municípios de residência. Buscando a melhoria do atendimento a esses pacientes e a redução da lista de espera nos hospitais que são referência para esta doença, caso do Hospital das Clínicas da UFG, foi idealizado o projeto-piloto para os municípios de jurisprudência da Regional de Saúde – RS Oeste II, cuja sede é a cidade de São Luís de Montes Belos”, detalha Liliane.

Conforme a biomédica, o projeto funciona por meio de uma plataforma interativa, onde é possível a utilização de um prontuário eletrônico para a realização de uma teleconsultoria com médicos considerados de referência e ligados ao ambulatório de Chagas do Hospital das Clínicas da UFG. O primeiro passo foi a capacitação dos médicos, seguido do credenciamento dos mesmos na plataforma do Telessaúde. A teleconsultoria amplia a visão técnica dos profissionais de saúde; aumenta a resolutividade no atendimento, reduz o número de encaminhamentos, diminui riscos e agravos pelo deslocamento de pacientes entre outros benefícios.

“A melhora no acesso à saúde dos portadores de Chagas, sem a necessidade de deslocamento dos seus municípios de residência para Goiânia, ou a dependência de casas de apoio, colabora diretamente para a melhor qualidade de vida do paciente”, acrescenta a biomédica.

A intenção é que, futuramente, o projeto envolvendo a telemedicina se estenda a todo o Estado em breve. “Pretende-se ampliar a esfera de especialistas para estes pacientes, pois sabe-se que além do médico, biomédico e enfermeiros, se faz necessária a participação de outros profissionais de saúde como fisioterapeutas, nutricionistas, assistentes sociais e psicólogos”, adianta Liliane.

“Como biomédica, posso afirmar que a nossa profissão pode abranger várias áreas de todo esse processo, desde o diagnóstico laboratorial, vigilância epidemiológica, promoção e prevenção da saúde por meio de palestras, divulgação da ficha de notificação dos casos crônicos, acompanhamento da liberação correta do medicamento (realizada pela assistência farmacêutica estadual) mediante avaliação e interpretação do laudo de exames e documentos comprobatórios exigidos pela Secretaria de Saúde, apoio na investigação entomológica, elaboração de planos de ação nesta doença para capacitação de profissionais na área de saúde”, enumera.

Há menos de dois meses, representantes de duas importantes organizações internacionais estiveram no município de São Luís de Montes Belos para ver in loco o trabalho. A Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi) é uma organização sem fins lucrativos de pesquisa e desenvolvimento, que realiza tratamentos seguros, eficazes e acessíveis para milhões de pessoas afetadas por doenças negligenciadas. Já a Médicos Sem Fronteiras (MSF) é uma organização humanitária que leva cuidados de saúde a pessoas afetadas por graves crises humanitárias em diversas partes do mundo.

“Considero a vinda desses representantes de suma importância, pois ambas traduzem credibilidade a essa proposta que estamos pleiteando em nosso Estado, já que tais organizações estão envolvidas em vários projetos e parcerias em diversos países e contam com uma larga experiência”, conclui a biomédica Liliane Siriano.

Cenário da Doença de Chagas em Goiás

Estima-se que em Goiás haja 200 mil infectados crônicos e que de acordo com o Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), em média, 750 pessoas vão a óbito por ano em decorrência da doença no Estado.

Informações publicadas na plataforma de Chagas do DNDi, aponta menos de 10% das pessoas com doença de Chagas nas Américas são diagnosticadas, e somente cerca de 1% das que têm a doença recebe tratamento antiparasitário. Os medicamentos atuais, descobertos há meio século, são eficazes durante a fase aguda e o início da fase crônica da doença de Chagas.

Além da transmissão vetorial, a doença de Chagas pode ser transmitida pela via congênita, oral, acidentes laboratoriais, transplante de órgãos e transfusões sanguínea. Goiás e Mato Grosso do Sul inseriram nos exames pré-natais, o teste da Mamãe, a sorologia para doença de Chagas.

Em aproximadamente 348 mil gestantes triadas em Goiás durante os anos de 2003 a 2009, a doença de Chagas foi a terceira mais diagnosticada, ficando atrás somente de sífilis e toxoplasmose. “Esse diagnóstico é muito importante, pois sabe-se que ao triar os filhos de mães infectadas e estes forem positivos a possibilidade de cura é de 100%”, garante Liliane.

 

 

Outras Notícias