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27/02/19

Biomédico que integrou equipe de ganhador do Nobel de Medicina conversa com o site do CRBM-3

Mesmo sem relação direta com o trabalho vencedor, Jorge Scutti fala da satistação em contribuir com uma vida melhor para pacientes que sofrem de câncer e destaca a amplitude de conhecimento e o caráter multidisciplinar da Biomedicina preponderantes para o futuro da profissão

Biomédico Jorge Scutti (dir.) com um dos premiados com o Nobel de Medicina ou Fisiologia, James Alisson

O biomédico e doutor em Imunologia Jorge Scutti é um aficionado por pesquisas. A atração pela descoberta de novos conhecimentos surgiu ainda nos tempos de estudante do ensino fundamental. Ao graduar-se em Biomedicina pela Universidade de Araraquara (UNIARA), em São Paulo, e empreender uma carreira sempre voltada aos estudos e à pesquisa, alcançou um patamar que poucos profissionais atingem.

Jorge integrou a equipe de um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia no ano passado, formada pelos pesquisadores James Alisson e Tasuko Honjo, do MD Anderson Cancer Center, no Texas (EUA).
O estudo aumentou a efetividade dos tratamentos contra o câncer a partir da Imunoterapia. Justamente, a área de especialidade do biomédico Jorge Scutti que, atualmente, é diretor de Biomarcadores e Diagnóstico da Merck Sharpe & Dohme (MSD), nos Estados Unidos.

"A minha participação não está diretamente ligada à contribuição ao prêmio Nobel, cujas pesquisas começaram nos anos 90. O meu envolvimento e minha história vieram bem depois dessa época. Durante três anos fui um dos pesquisadores da equipe liderada por Jim (James Alisson). Eu realizava todos os estudos científicos de imuno-monitoramento (avaliação de como o sistema imune se comporta e reage frente ao câncer) em pacientes sobre alguma forma de imunoterapia", detalha Jorge.

Para um dos poucos brasileiros a fazer parte de um grupo liderado por um prêmio Nobel esta é uma experiência que não tem preço. "Estar envolvido com um seleto grupo de pesquisadores que objetivam não somente descobrir a cura para o câncer, mas também estratégias terapêuticas a fim de contribuir com uma vida melhor para pacientes que sofrem desta doença foi uma experiência única e sinto-me honrado", acrescenta. O biomédico concedeu entrevista ao site do CRBM-3. Vale a pena conferir:

Participar de pesquisas reconhecidamente importantes para a humanidade, como a que conquistou o Prêmio Nobel, o que representou?
O bem maior que qualquer profissão pode trazer é a satisfação pessoal. Quando a satisfação pessoal corrobora com o bem estar do próximo, costumo dizer que atingimos o nirvana da realização pessoal/profissional. Com essa filosofia em prática eu posso dizer que atingi o sucesso durante os anos dedicados a pesquisa. A caminhada é longa, mas estamos no caminho certo.

Destaque suas contribuições neste trabalho?
A minha participação não está diretamente ligada à contribuição ao prêmio Nobel. Os laureados, James Allison e Tasuku Honjo conquistaram o prêmio pelas suas contribuições científicas nos anos 90, as quais permitiram o desenvolvimento de uma nova forma de imunoterapia capaz de tratar pacientes com câncer, a chamada inibição dos pontos de checagem do sistema imune (em inglêsimmune checkpoint inhibitors). Através de suas descobertas abriu-se um leque de investigação de possíveis moléculas que poderiam contribuir, de forma terapêutica, para o aumento da sobrevida de pacientes em diversos tipos de câncer. Nesse contexto, surgiram duas drogas, as quais bloqueiam proteínas que servem como freios em uma população específica de células do sistema imune (os linfócitos). Esses freios se desenvolvem naturalmente ao longo da evolução do sistema imune para manter o equilíbrio e a prevenção de doenças auto-imunes. Secundariamente, no âmbito do câncer, essas moléculas são utilizadas para evitar as respostas específicas contra células cancerosas e, consequentemente, a correta ativação deste sistema na destruição de células cancerosas se torna comprometida. Essas proteínas que exercem a função de freios são conhecidas como CTLA-4 e PD-1. Uma vez bloqueadas, os linfócitos se tornam ativados e são capazes de reconhecer e destruir as células cancerosas. O meu envolvimento e minha história vieram bem depois dessa época. Em 2014 eu vim para os USA para realizar um programa de pós doutorado no MD Anderson Cancer Center (MDACC), em Houston, Texas, um dos melhores e mais conceituados institutos no tratamento e pesquisas em câncer. Em 2015, comecei a desenvolver pesquisas na plataforma de Imunoterapia liderada pelo Jim Allison. Durante três anos fui um dos pesquisadores da equipe liderada por Jim. Eu realizava todos os estudos científicos de imuno-monitoramento (avaliação de como o sistema imune se comporta e reage frente ao câncer) em pacientes sobre alguma forma de imunoterapia, seja ela mediada por immune checkpoints inhibitors ou não. Meu objetivo juntamente ao grupo era tentar entender e responder algumas questões referentes às razões pelas quais alguns pacientes respondiam melhores do que outros ou enquanto outros não respondiam ao tratamento. Contribui diretamente para a publicação de diversos artigos e discussões científicas, as quais forneceram evidências para explicar a eficácia da imunoterapia e como podemos ainda melhorar essa forma de tratamento, além de expandir para os mais raros tipos de câncer adulto e pediátricos.

Para o senhor qual a importância e/ou a necessidade de os biomédicos se especializarem cada vez mais?
A informação está cada vez mais dinâmica. Temos diversas formas de acessar a informação. Porém, não podemos confundir acesso à informação com conhecimento. Uma das razões que me fizeram optar pelo curso de Biomedicina foi a amplitude de conhecimento e o caráter multidisciplinar que somos expostos e treinados a desenvolver/participar desde o primeiro ano de graduação. A capacidade de angariar conhecimento e disseminá-lo com qualidade em qualquer âmbito profissional é uma característica marcante que nós biomédicos somos capazes de entregar. Se especializar torna-se indispensável nos dias de hoje. É através das constantes especializações que nos tornamos imprescindíveis no mercado de trabalho, ainda mais diferenciados em mundo preciso e ainda contribuímos de forma ativa com os demais profissionais ao nosso redor.

Comente sobre as oportunidades para os futuros profissionais biomédicos no exterior. Tem conhecimento?
Eu desconheço o campo de atuação do profissional biomédico (análises clínicas) no exterior e particularmente aqui nos USA. O que eu posso compartilhar é a minha experiência como biomédico/pesquisador. Primeiro, é um processo que exige um interesse bilateral entre você (biomédico/pesquisador) e investigador principal. Alguns deles podem oferecer uma bolsa por um período, outros não arriscam conceder esta bolsa sem antes conhecer definitivamente as suas habilidades e senso crítico. Por esta razão, caso o biomédico tenha algum projeto vinculado a alguma Instituição, órgãos de fomento podem custear os projetos em nível de mestrado, doutorado no exterior (sanduíche ou pleno) ou até mesmo um estágio. Outra questão importante é o tipo de visto que você entrará nos USA. Existem diversos vistos e para cada um deles, algumas exigências são feitas.

Como professor, acredita que quais aspectos devam melhorar no âmbito da Biomedicina?
Hoje não leciono mais, porém acredito que uma vez educador a paixão por ensinar toma conta de tudo aquilo que você faz em qualquer ambiente. O que eu vejo hoje é evolução no campo do aluno. Quem são eles? O que eles precisam? Como iremos atingi-los e contaminá-los com a paixão do estudar e ensinar, sem que seja algo mastigado e facilmente entregue por meio da tecnologia. Não estou dizendo que a tecnologia não está ai para ser usada. Temos que explorá-la, ao máximo, mas não podemos ser reféns; ela está ao nosso serviço e não vice-versa. Além disso, precisamos de políticas que garantam o acesso e o financiamento à pesquisa. Programas de iniciação científica, parcerias com instituições Federais e Estaduais. Levar nossos alunos de graduação às escolas de ensino Fundamental e Médio. Permitir que eles auxiliem na formação básica de futuros biomédicos. Lá esttá o futuro da nossa profissão. O curso de Biomedicina tem que ser mais proativo nesse âmbito ao invés de ser reativo.

Tem opinião sobre os cursos EAD para a área de Saúde? Essa modalidade de ensino tem crescido no Brasil.
Eu vejo os cursos de EAD como uma ferramenta complementar na formação do profissional. Algumas disciplinas permitem o caráter virtual, outras não. Temos que tomar cuidado para que esta ferramenta não substitua o presencial, o dia a dia. O papel do educador, sua presença física, a troca de experiência, a linguagem corporal são indispensáveis para o aprendizado do aluno. Muito dos questionamentos e do crescimento profissional são angariados no dia a dia, na troca de informação com colegas de classe e até mesmo no caráter multidisciplinar com colegas de outros cursos como farmácia, medicina, fisioterapia, biologia etc.

Outros comentários a acrescentar?
Eu gostaria de agradecer o espaço a mim conferido nessa entrevista e a minha felicidade em poder compartilhar um pouco da minha experiência com os jovens. Que minhas palavras sirvam como instrumento no desenvolvimento do espírito crítico dos nossos futuros biomédicos e cientistas, para que muitos outros jovens tenham a mesma experiência que eu tive em compartilhar uma vida profissional com um seleto grupo de pesquisadores, entre eles um prêmio Nobel de Medicina. Também gostaria de agradecer a Deus pelas bênçãos, à minha familia, esposa Yasmin Scutti e filhos Catharina e Thales por estarem sempre ao meu lado e dos amigos de laboratório Dr. Luis Vence e Mariana Conde Pineda.(Imprensa CRBM-3)

 

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